Inaugurando a Academia: Vamos falar sobre RPGs?

 Bom dia, caras e caros!


A Academia do RPG (e esse nome tem uma boa estória por trás, que um dia eu vou compartilhar) nasceu da minha ideia de, após 35 anos jogando e narrando RPGs, compartilhar um pouco do que eu aprendi e observei nesse hobby que eu amo e que, para minha alegria, tantas pessoas compartilham.

E, como eu aparentemente gosto de tornar minha vida o mais difícil possível, vou começar por um blog! E publicarei cada post duas vezes: primeiro em português e depois em inglês.

Quando me mudei para São Paulo (por trabalho, como 100% das pessoas que se mudam para São Paulo), eu e minha esposa levamos anos para montar um grupo de RPG com pessoas saudáveis, divertidas e, acima de tudo, que não furam.

Como quase tudo na vida, quando você precisa desesperadamente de algo, é quase impossível encontrar. E, quando finalmente encontra, chove ao seu redor. Agora que estamos com um grupo de pessoas fenomenais jogando e querendo jogar conosco, o que nos falta é agenda para organizar todo mundo. E mais e mais pessoas aparecem em nossas vidas, falando o quanto gostariam de entrar no mundo do RPG, ou voltar para ele. Então, minha primeira ideia foi “vamos criar um grupo para que jogadores se encontrem!”. Quase um “Tinder do RPG”. Não sei por que fiquei surpreso ao descobrir que outras pessoas já tinham tido essa ideia e feito isso. Mas, afinal de contas, quod abundat non nocet. Então vamos criar mais um!

 

Assim, nossa recém-nascida Academia tem quatro propósitos:

  1. Postar sessões de actual play de alguns dos nossos jogos de RPG favoritos, novos RPGs que achemos divertido testar, clássicos que queiramos compartilhar ou, eventualmente, algum RPG tão ruim que seja engraçado tentarmos tornar funcional... Vamos de Mork Borg a RuneQuest, passando por tudo no caminho, saindo da eterna bolha do “maior RPG do mundo”.
  2. Publicar conteúdo de RPG que possa ser útil (ou só divertido) para outros jogadores, sejam aventuras, regras e opções alternativas até, quem sabe, um dia criar um sistema próprio...
  3. Criar uma comunidade (grupo de WhatsApp e/ou Discord) para que jogadores se encontrem e possam montar grupos com outras pessoas que, miraculosamente, também tenham um final de semana livre! Também vamos compartilhar ferramentas de segurança para que todos possam ativamente se divertir no jogo, criando traumas apenas nos PCs, não nos jogadores...
  4. Analisar e criticar livros de RPG e, quem sabe, outros jogos, tanto para que novos jogadores possam escolher, com boas informações, se um jogo é para eles quanto para jogadores velhos comiserarem comigo sobre a dificuldade de achar uma regra específica em um livro de Mago...

É sobre esse último tópico que quero falar hoje:  como eu analiso um jogo de RPG?

Vamos começar por um método com o qual todo GM e jogador deve estar familiarizado: criando uma ficha de RPG nele!

Vamos criar um personagem do zero, descobrindo quão fácil (ou quase impossível) é criar um personagem jogável e, torçamos, memorável, no jogo.

Feito isso, podemos seguir para criar uma ficha para o RPG em si.

E o que uma ficha de RPG do próprio RPG incluiria? Isso é fácil: Classe, Atributos e Nível!

Aqui está a anatomia da ficha de um RPG:


Nome: Essa é a parte fácil.

Classe (sistema): aqui vamos falar se o jogo usa algum dos sistemas ou tipos de sistemas (D20, Storyteller, Storypath, BRP, PBTA, Borg-like, etc) conhecidos, ou se usa um sistema próprio. Depois vamos falar um pouco sobre o que o jogo é e ao que ele se propõe.

Atributos: Como toda boa ficha de RPG, essa tem Atributos. Tentei destilar tudo o que considero mais importante em um jogo, que pode atrair (ou não!) jogadores à mesa e, vamos torcer, tornar a experiência de um GM criando uma campanha tão fácil e amistosa quanto possível. Como eu sou velho e me criei no World of Darkness, optei por usar o critério de 1 a 5 para cada atributo. Os atributos são Tema, Sistema, Acessibilidade, Segurança, Arte, Design e Layout e, para os livros que chegarem ao Brasil em versão traduzida, Tradução. O significado dos níveis dos Atributos é:

0          Terrível: A exceção à regra de 1 a 5 pontos. Danifica todo o conjunto da obra. Talvez seja melhor largar esse jogo e procurar outro. Quero acreditar que não precisarei dar essa nota com frequência! Entretanto, infelizmente vai ser minha nota para qualquer livro que não tenha ferramentas de Segurança.

          Fraco: O livro é realmente ruim nisso. O jogo falha nesse Atributo ou, pior, trabalha contra a própria proposta do produto ou contra outros Atributos dele.

••         Medíocre: Meh. Há alguma coisa boa, mas os problemas ainda pesam mais do que as qualidades. Esse aspecto do livro não me impressionou, mas também não estraga a leitura.

•••        Bom: Esse aspecto do livro não é perfeito, mas é funcional e atende às necessidades do produto. O suficiente para atender GMs e jogadores.

••••      Excepcional: Qualquer que seja o aspecto do livro, ele vai bem além de simplesmente atender às necessidades. Pode não chegar ao hall da fama dos melhores RPGs, mas com certeza é algo que chama a atenção e aprimora a obra, podendo servir como um ótimo exemplo para outros jogos.

•••••     Fenomenal: Quem criou esse RPG estava claramente inspirado pelas musas no dia! Esse aspecto do livro faz com que ele seja uma boa leitura por si só, nem que seja apenas para aprender com os mestres. Aspectos que mudam o cenário do RPG em si e se tornam referência para outros jogos.

 Vamos falar um pouco sobre o que cada Atributo representa:


Nenhum RPG sabe tão bem o que é e o que quer ser quanto Blades in the Dark. Essa introdução é perfeita e coloca qualquer um que a leia no jogo imediatamente.

Tema: Quão bem o jogo "vende" a proposta e temas dele; o quão bem ele passa o tipo de estórias que quer contar para o leitor e o quanto ele ajuda o leitor a entrar no cenário.

Essa é a melhor tabela de alcances que já vi em um RPG. Mothership combina perfeitamente as regras e os temas do jogo, algo ainda mais difícil de fazer em um sistema “aberto”, sem um cenário ultra específico como o de Blades in the Dark.

Sistema: As regras básicas do jogo e os subsistemas conectados a elas são analisados pelo quão bem alcançam o que o jogo busca e principalmente pelo quanto oferecem de suporte ao tema. Aqui medimos os sistemas pelo quão bem eles fogem do nosso arqui-inimigo, a temida dissonância ludonarrativa! Mas não julgamos o quão fácil é aprender o jogo, porque vamos falar disso em...

Fazer uma ficha com canetão? Que feitiçaria é essa? Em Pirate Borg, você cria um pirata divertido, (relativamente) funcional e pronto para jogar com 5 minutos e exatamente 18 rolagens de dados. É uma pena que a empresa resolveu excluir o Brasil no último financiamento coletivo deles.

Acessibilidade: AQUI nós medimos o quão fácil é aprender o jogo! Que dificuldades um novo jogador vai encontrar ao tentar aprender esse RPG? Ele é matematicamente complexo? Criar um personagem e/ou uma campanha é fácil? Ele ajuda o GM a contar uma estória dentro do tema do jogo? E, acima de tudo, você precisa de um doutorado em matemática para entender as regras?


Embora eu não possa me chamar de especialista nisso, me impressionou a preocupação com segurança e consentimento que aparece com frequência em Apocalipse Keys. Achei particularmente interessante porque com certeza não é um dos RPGs mais risqué que já joguei.

Segurança: Como a maioria dos jogadores mais velhos, a preocupação com sistemas de segurança e inclusividade é algo que não existia quando eu comecei a jogar. No máximo tínhamos um texto, geralmente bem sarcástico, falando que “esse jogo trata de temas fictícios. Por favor não mate ninguém por causa dele”. Muito mais do que uma preocupação legal com “pânico satânico”, os melhores RPGs recentes se preocupam em garantir que todas as pessoas sentadas na mesa se sintam confortáveis, bem-vindas e incluídas na diversão. Ressalva: eu com certeza não sou um especialista no assunto. Mas conheço alguns, com quem podemos falar no futuro para nos aprofundarmos nesse tópico. Dito isso, a ausência completa de ao menos alguma preocupação com ferramentas de segurança infelizmente é uma marca negativa que ainda existe em muitos jogos.


Household possui, apesar de quaisquer outros defeitos, de longe a melhor arte e identidade visual de qualquer RPG que vi na vida.

Arte: Quem é um RPG bonitinho? Você é! Esse atributo mede minha absolutamente subjetiva opinião sobre se o livro é lindo, bonito, feio, ou horrível (no bom ou mau sentido).


Pendragon possui uma tabela para tudo. E um índice apenas para tabelas! Até você ter um índice de tabelas, você não sabia que precisava de um para viver.

Design e layout: Ao contrário da arte, nosso objetivo aqui é descobrir se o livro é fácil de navegar, se o jogo possui bons índices e tudo que pode facilitar (ou dificultar) a vida do leitor. E também quanta dificuldade você vai ter em encontrar as regras no meio do combate quando estiver freneticamente procurando a tabela de dano de objetos improvisados encontrados em um banheiro vitoriano.


Traduzir e diagramar esse livro deve ter sido uma verdadeira saga (desculpem, não resisti). Mas na verdade escolhi essa página porque a habilidade “Memórias de Outrem” é, com certeza, a mais interessante que já vi em qualquer livro de RPG na minha vida e eu queria compartilhá-la.

Tradução: apenas para livros que foram trazidos para o Brasil, vou aproveitar o background como tradutor (e minha chatice inata) para analisar o quão bem traduzido o livro foi.

Vamos verificar não apenas possíveis erros de tradução, mas também se os termos técnicos e do cenário foram bem transferidos para a língua portuguesa e, nos casos mais flagrantes, que outras traduções poderiam ter sido escolhidas.

Confesso que por muitos anos eu evitei ler livros em português, pelo meu desespero existencial com a qualidade das traduções oficiais. Mas trazer livros mais próximos ao público com material traduzido é uma missão nobre e fundamental (e frequentemente ingrata) e, felizmente, o material brasileiro melhorou DEMAIS nos últimos anos.

Aprendi que termos esse material traduzido é indispensável para a comunidade brasileira. Mas isso não vai me fazer pegar mais leve na crítica às traduções.

Imagino que tenhamos ZERO polêmica nessa categoria...


Um exemplo perfeito de como eu analiso o nível de um RPG: Mago tem várias notas 1 ou 2; talvez um zero em Segurança, mas ainda assim, recebe 8 na minha análise final. E só não recebe 10 porque as regras não permitem...

Nível: Aqui nós vamos roubar um pouco do "maior RPG do Mundo". O nível de um livro é a nota da minha opinião geral sobre ele. Não é uma soma das notas anteriores, nem uma média exata dos atributos, mas minha análise, pessoal e subjetiva, considerando: 1. quanto eu gosto pessoalmente do RPG, 2. quão bem ele faz o que se propõe a fazer e 3. quanto eu o recomendaria para outros jogadores.

Ao contrário dos Atributos, o Nível é medido de 1 a 10, porque todo GM que já tentou narrar um jogo de D&D de nível épico sabe, o jogo quebra quando passa desse nível. 

 

Claro que é fácil falar sobre um sistema de análise, da mesma forma que é fácil falar bem ou mal de um sistema de RPG. A melhor forma de garantir que nosso sistema funciona é testá-lo! E no próximo post vamos fazer isso criando uma ficha de RPG para o último jogo que tive o prazer de narrar: Shadowdark.


Acima um pequeno spoiler do protótipo de ficha que usaremos para analisar jogos!

Nos próximos dias compartilharei meu review por aqui. Até lá: Fortes inquit, fortuna iuvat!

Comentários

  1. Se um blog tem trechos em latim, já merece respeito! Se fala sobre o melhor hobby da terra, só merece elogios. Parabéns @ricardo pela iniciativa, mas espero para ver o ranking e ler novos posts. :)

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    Respostas
    1. “Mal”, nao “mas” rsrsrs

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    2. Obrigado, meu caro!
      Na segunda vamos soltar o primeiro review, como teste, e em seguida vamos falar de um dos meus RPGs favoritos: Blades in the Dark!

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